quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Um poema...

Quando um Homem Quiser
Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas' 

O poema musicado:

Programação mensal | dezembro


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Escritor do mês | novembro

Filipa Fonseca Silva
(1979/)


“Para escrever, é interessante desbravar terrenos que nunca experimentámos.”


Filipa Fonseca Silva nasceu no Barreiro em 1979. Licenciada em Comunicação Social e Cultural pela Universidade Católica, preferiu a publicidade ao jornalismo, tornando-se redatora publicitária em 2004, profissão que ainda exerce. Sonha tornar o mundo mais verde e espalhar histórias bonitas.

"Os Trinta – Nada é como Sonhámos" (2011) foi a sua primeira obra publicada, seguindo-se-lhe "O Estranho Ano de Vanessa M." (2014), “Coisas que uma Mãe Descobre" (2015) e mais recentemente «Amanhece na Cidade» (2017). É a única portuguesa a ter chegado ao Top 100 da Amazon em todo o mundo.

Além de escrever, adora pintar, colecionar sapatos e comer melancia. Vive em Lisboa com o marido e os filhos.


Nas ruas de Lisboa, um táxi circula e observa as vidas que passam por si. Através dele, ficamos a conhecer a história de Manuel, o taxista que não sabe chorar, e das várias personagens que fazem parte dos seus dias. Olinda, a ama de duas crianças mal-educadas; Daisy, a stripper; ou João, o sem-abrigo. Um dia, um momento infeliz com desfecho trágico, obriga Manuel a confrontar-se consigo próprio, e as consequências serão mais transformadoras do que ele alguma vez imaginou


Um romance contemporâneo, que toca temas de sempre, como o amor e a redenção, e outros de agora, como a crise dos refugiados e a alienação da sociedade.

“A ideia para este livro surgiu numa viagem de táxi onde eu encontrei um taxista que me inspirou para a criação do Manuel – que é o taxista desta história. Foi um taxista que, talvez por necessidade, veio o caminho todo a contar-me que a mulher o traiu e deixou. Ele chorava e eu já não sabia o que lhe havia de dizer. Quando saí do táxi pensei: tenho de escrever sobre a história deste taxista e o que lhe aconteceu depois. Foi por aí que tudo começou. Só depois decidi que o narrador não seria um taxista, mas um táxi.”

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Um poema...

Quando
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'


O Leituras sugere...





...para novembro


A Incrível Fuga do Meu Avô

David Walliams


Há muitos, muitos anos, o avô Bandeira foi um ás dos céus e herói de guerra. Mas quando começa a confundir a idade que tem e o tempo em que vive, é enviado para um lar.

A única pessoa capaz de o compreender é Jack, o neto. Juntos, vão viver a maior aventura das suas vidas e planear a mais ousada das fugas!

Esta é a história de uma amizade inquebrável entre um neto e o seu avô que deveria ser lida por todos, inclusive pelos mais velhos, que muitas vezes abandonam simplesmente os seus progenitores em casas de repouso.

Uma obra envolvente e… divertida! A não perder!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Escritor do mês | outubro

MANUEL ALEGRE
(1936/)


Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu a 12 de maio de 1936 em Águeda. 

Estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde foi um ativo dirigente estudantil. Apoiou a candidatura do General Humberto Delgado. Foi fundador do CITAC – Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, membro do TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, campeão nacional de natação e atleta internacional da Associação Académica de Coimbra. Dirigiu o jornal A Briosa, foi redator da revista Vértice e colaborador de Via Latina.

Quando cumpria o serviço militar em Angola, participou na primeira tentativa de rebelião contra a guerra colonial, sendo então preso pela PIDE. Seguiu-se o exílio em Argel, onde foi membro diretivo da F.P.L.N. e locutor da rádio Voz da Liberdade. A sua atividade política andou sempre a par da atividade literária e alguns dos seus poemas ("Trova do Vento que Passa", "Nambuangongo Meu Amor", "Canção com Lágrimas e Sol"...) transformaram-se em hinos geracionais e de combate ao fascismo, copiados e distribuídos de mão em mão, cantados por Adriano Correia de Oliveira ou Manuel Freire. Os seus dois primeiros livros, "Praça da Canção" (1965) e "O Canto e as Armas" (1967) venderam mais de cem mil exemplares.

Regressado do exílio em 1974, "o poeta da liberdade" desempenhou um papel de relevo no Partido Socialista. Foi membro do Governo, deputado da Assembleia da República e ocupou um lugar no Conselho de Estado. Em maio de 2010 apresentou formalmente a sua candidatura à Presidência da República.

 Os livros mais recentes (note-se ainda a incursão pela prosa: "Jornada de África", 1989, "Alma", 1995, e " "A Terceira Rosa", 1998) levam-no ao diálogo com poetas de outros tempos, como Dante ou Camões, ou a refletir sobre a condição humana, a morte e o sentido da existência, de que são exemplo os "Poemas do Pescador", incluídos no livro "Senhora das Tempestades": «Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades / (...) Senhora do Sol do sul com que me cegas / / (...) Senhora da vida que passa e do sentido trágico // (...) Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita / alquimia de sons Senhora do vento norte / que trazes a palavra nunca dita / Senhora da minha vida Senhora da minha morte.» 

Manuel Alegre tem sido distinguido por inúmeras condecorações e medalhas. A sua obra está editada em diversas línguas, nomeadamente italiano, espanhol, alemão, catalão, francês, romeno e russo e goza de reconhecimento nacional e internacional, tendo recebido múltiplos e importantes prémios literários:

1998 - Prémio de Literatura Infantil António Botto, pelo livro As Naus de Verde Pinho 
1998 - Prémio da Crítica Literária atribuído pela Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, pelo livro Senhora das Tempestades 
1998 - Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, patrocinado pelos CTT, pelo livro Senhora das Tempestades 
1999 - Prémio Pessoa, patrocinado pelo jornal Expresso e importante referência no panorama cultural português, pelo conjunto da Obra Poética, editada em 1999
1999 - Prémio Fernando Namora, patrocinado pela Sociedade Estoril-Sol, pelo livro A Terceira Rosa 
2008 – Prémio D. Dinis, patrocinado pela Fundação da Casa Mateus, pelo livro Doze Naus 
2010 - Tributo Consagração atribuído pela Fundação Inês de Castro (FIC), instituição de Coimbra, pela totalidade da sua obra.
2016 - Prémio Vida Literária 2015/2015 da Associação Portuguesa de Escritores 
2016 - Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores
2016 - Grande Prémio de Literatura dst pelo livro de poemas "Bairro Ocidental"
2017 - Prémio Guerra Junqueiro instituído pelo FFIL - Freixo Festival Internacional de Literatura 
2017 - Prémio Camões (instituído pelos governos do Brasil e de Portugal, o maior prémio literário da língua portuguesa).

A obra literária de Manuel Alegre tem sido, também, objeto de estudos e teses de doutoramento e mestrado.

Sobre a sua obra poética, reeditada sucessivas vezes, Eduardo Lourenço afirmou que "sugere espontaneamente aos ouvidos (...) a forma, entre todas arquétipa, da viagem, do viajante ou, talvez melhor, peregrinante". O livro Senhora das Tempestades  inclui o poema com o mesmo nome, que Vítor Manuel Aguiar e Silva considerou "uma das mais belas odes escritas na língua portuguesa". Segundo Paola Mildonian, Manuel Alegre "canta a dor e o amor da história com acentos universais, com uma linguagem que (...) recupera em cada sílaba os quase três milénios da poesia ocidental". No Livro do Português Errante, Manuel Alegre, segundo Paula Morão, emociona e desassossega: "depõe nas nossas mãos frágeis as palavras, rosto do mundo, faz de nós portugueses errantes e deixa-nos o dom maior (...) – os seus poemas".

Poesia

·        1965 - Praça da Canção
·        1967 - O Canto e as Armas
·        1971 - Um Barco para Ítaca
·        1976 - Coisa Amar (Coisas do Mar)
·        1979 - Nova do Achamento
·        1981 - Atlântico
·        1983 - Babilónia
·        1984 - Chegar Aqui
·        1984 - Aicha Conticha
·        1991 - A Rosa e o Compasso
·        1992 - Com que Pena — Vinte Poemas para Camões
·        1993 - Sonetos do Obscuro Quê
·        1995 - Coimbra Nunca Vista
·        1996 - As Naus de Verde Pinho
·        1996 - Alentejo e Ninguém
·        1997 - Che
·        1998 - Pico
·        1998 - Senhora das Tempestades
·        1999 - E alegre se fez triste
·        2001 - Livro do Português Errante
·        2008 - Nambuangongo, Meu Amor
·        2008 - Sete Partidas
·        2015 Bairro Ocidental
·        2017 - Auto de António

Ficção

·        1989 - Jornada de África
·        1989 - O Homem do País Azul
·        1995 – Alma (romance de  dimensão autobiográfica no qual narra a sua infância e adolescência)
·        1998 - A Terceira Rosa
·        1999 - Uma Carga de Cavalaria
·        2002 - Cão Como Nós
·        2003 – Rafael

Literatura Infantil

·        2007 - Barbi-Ruivo, O meu primeiro Camões, ilustrações de André Letria, Publicações Dom Quixote, 1ª edição, novembro de 2007
·        2009 - O Príncipe do Rio, ilustrações de Danuta Wojciechowska, Publicações Dom Quixote, abril de 2009
·        2015 - As Naus de Verde Pinho: Viagem de Bartolomeu Dias contada à minha filha Joana. Prémio de Literatura Infantil António Botto

Outros.

·        1997 - Contra a Corrente (discursos e textos políticos)
·        2002 - Arte de Marear (ensaios)
·        2006 - O Futebol e a Vida, Do Euro 2004 ao Mundial 2006. (crónicas)
·        2016 - Uma outra memória - A escrita, Portugal e os camaradas dos sonhos


Fala de Alcântara e depois

Era um resto de cavalaria
quantos ao certo não sei
o que sobrou de Alcácer-Quibir
um resto
por seu reino e por seu rei.
Dois flancos dois frágeis terríveis flancos.
À primeira investida
levaram de vencida os invasores
era um resto de cavalaria
e povo mal armado.
Então o Duque de Alba carregou
trazia o exército mais forte da Europa
contra o que de nós ainda restava
cavaleiros sem cavalo
lavradores taberneiros sapateiros
fanqueiros mendigos chulos
putas
facas ancinhos foices pedras mãos
palavras palavrões
a língua portuguesa
o corpo e a alma
Alcântara e depois
Lisboa bairro a bairro rua a rua
por seu reino e por seu rei
quantos ao certo não sei
defendiam uma bandeira rota
além da morte além do fim.
Quando é assim
não há derrota.
Manuel Alegre, em "Auto de António"


“Este livro não é uma biografia, é uma revisitação poética da figura de Dom António, Prior do Crato. Foi escrito através de várias falas, inclusive a daqueles que nunca falaram e a do próprio autor. Ao longo do livro a figura de Dom António projecta-se em vários tempos e várias gerações e no nosso próprio tempo, sobretudo naqueles que resistiram e que tal como ele nunca se renderam”, diz Manuel Alegre a propósito do seu mais recente livro de poemas, Auto de António, que chegou às livrarias a 10 de outubro.

Fonte: www.manuelalegre.com/ (adaptado)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Programação Biblioteca


KAZUO ISHIGURO

 NOBEL DA LITERATURA 2017


‘Nasceu no Japão, mas cresceu como inglês. O nome escolhido pela academia sueca foi anunciado dia 5, quinta feira, em Estocolmo, e é o autor de livros como “Os Despojos do Dia” ou “Nunca me Deixes“.

Nascido a 8 de novembro de 1954, em Nagasaki, no Japão, Kazuo Ishiguro mudou-se para o Reino Unido em 1960, quando o seu pai foi aceite como investigador no National Institute of Oceanography.
Educado numa escola de rapazes em Surrey, o laureado que em tempos trabalhou para a Rainha Mãe como grouse-beater — basicamente, afugentava galinhas bravas em direção de caçadores — acabou por entrar na Universidade de Kent, na Cantuária, onde se especializou em língua inglesa e filosofia. O seu primeiro emprego, depois de ter concluído os estudos superiores, foi o de assistente social nos bairros mais pobres de Londres.

No discurso em que revelou o vencedor, a secretária permanente da organização sueca destacou os “romances de grande força emocional”, do autor, assim como a sua capacidade de “revelar os abismos por trás da ilusória sensação de conexão com o mundo”. Mais tarde, a mesma representante da Academia Sueca, disse em entrevista que este Nobel distingue “um escritor de grande integridade”, “um romancista absolutamente brilhante” que “desenvolveu um universo estético só seu”. Acabou por referir ainda que Franz Kafka, Jane Austen e “uma pitada de Marcel Proust” compõem o leque de principais influências do escritor.

No total, Ishiguro já conta com nove obras publicadas — a primeira, “Introductions 7: Stories by New Writers”, foi editada em 1981 e a mais recente, “O Gigante Enterrado”, chegou às lojas em 2015 –, e um total de 20 distinções (21, contando com a de esta quinta-feira), sendo que entre elas, as mais relevantes são o Man Booker Prize para ficção (2005), os dois Best of Young British Novelists atribuídos pela Granta (em 83 e 93) e a nomeação como Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres em França, no ano de 1998.

“Os Despojos do Dia”, romance editado em 1989, conta a história de Stevens, um mordomo que relata o seu dia-a-dia e o relacionamento com a governanta Miss Kenton. Transposto para o grande ecrã em 1993 — com Anthony Hopkins e Emma Thompson como protagonistas –, a obra destaca-se pela forma curiosa como nasceu. Num artigo escrito em primeira pessoa para o Guardian, Ishiguro explica que demorou quatro semanas a escrever o livro. No verão de 1987, o autor vivia um período de sucesso e grande requisição: “Propostas de carreira tentadoras, jantares e festas, apelativas viagens ao estrangeiro e montanhas de correspondência tinham colocando um ponto final na minha capacidade de trabalho”, explica.Como tal, Kazuo e a mulher, Lorna, decidiram tomar medidas drásticas, por isso, durante quatro semanas, o escritor entrou num estado de reclusão total a que chamou de “Crash”.

“Todos os dias, de segunda a domingo, entre as nove da manhã e as dez e meia da noite, não fazia mais nada senão escrever”, escreve Ishiguro. Limpou “impiedosamente” a sua agenda, deixou o telefone tocar e o correio por ver. Aos 32 anos, conseguia assim, pela primeira vez, fazer com que o mundo ficcional que criava se tornasse “mais real que a realidade”. Em jeito de curiosidade destaca ainda a sua estreia a escrever… no seu escritório — “A casa nova onde vivíamos tinha um escritório. Nunca tinha tido um, os meus dois primeiros livros foram escritos na mesa da sala de jantar”, revela.’

A partir da próxima semana, a Biblioteca da Fundação A LORD disponibiliza títulos deste autor a todos os leitores interessados. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Um poema...

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho! 


Olavo Bilac, in "Poesias", Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1964