segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Programação Biblioteca


KAZUO ISHIGURO

 NOBEL DA LITERATURA 2017


‘Nasceu no Japão, mas cresceu como inglês. O nome escolhido pela academia sueca foi anunciado dia 5, quinta feira, em Estocolmo, e é o autor de livros como “Os Despojos do Dia” ou “Nunca me Deixes“.

Nascido a 8 de novembro de 1954, em Nagasaki, no Japão, Kazuo Ishiguro mudou-se para o Reino Unido em 1960, quando o seu pai foi aceite como investigador no National Institute of Oceanography.
Educado numa escola de rapazes em Surrey, o laureado que em tempos trabalhou para a Rainha Mãe como grouse-beater — basicamente, afugentava galinhas bravas em direção de caçadores — acabou por entrar na Universidade de Kent, na Cantuária, onde se especializou em língua inglesa e filosofia. O seu primeiro emprego, depois de ter concluído os estudos superiores, foi o de assistente social nos bairros mais pobres de Londres.

No discurso em que revelou o vencedor, a secretária permanente da organização sueca destacou os “romances de grande força emocional”, do autor, assim como a sua capacidade de “revelar os abismos por trás da ilusória sensação de conexão com o mundo”. Mais tarde, a mesma representante da Academia Sueca, disse em entrevista que este Nobel distingue “um escritor de grande integridade”, “um romancista absolutamente brilhante” que “desenvolveu um universo estético só seu”. Acabou por referir ainda que Franz Kafka, Jane Austen e “uma pitada de Marcel Proust” compõem o leque de principais influências do escritor.

No total, Ishiguro já conta com nove obras publicadas — a primeira, “Introductions 7: Stories by New Writers”, foi editada em 1981 e a mais recente, “O Gigante Enterrado”, chegou às lojas em 2015 –, e um total de 20 distinções (21, contando com a de esta quinta-feira), sendo que entre elas, as mais relevantes são o Man Booker Prize para ficção (2005), os dois Best of Young British Novelists atribuídos pela Granta (em 83 e 93) e a nomeação como Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres em França, no ano de 1998.

“Os Despojos do Dia”, romance editado em 1989, conta a história de Stevens, um mordomo que relata o seu dia-a-dia e o relacionamento com a governanta Miss Kenton. Transposto para o grande ecrã em 1993 — com Anthony Hopkins e Emma Thompson como protagonistas –, a obra destaca-se pela forma curiosa como nasceu. Num artigo escrito em primeira pessoa para o Guardian, Ishiguro explica que demorou quatro semanas a escrever o livro. No verão de 1987, o autor vivia um período de sucesso e grande requisição: “Propostas de carreira tentadoras, jantares e festas, apelativas viagens ao estrangeiro e montanhas de correspondência tinham colocando um ponto final na minha capacidade de trabalho”, explica.Como tal, Kazuo e a mulher, Lorna, decidiram tomar medidas drásticas, por isso, durante quatro semanas, o escritor entrou num estado de reclusão total a que chamou de “Crash”.

“Todos os dias, de segunda a domingo, entre as nove da manhã e as dez e meia da noite, não fazia mais nada senão escrever”, escreve Ishiguro. Limpou “impiedosamente” a sua agenda, deixou o telefone tocar e o correio por ver. Aos 32 anos, conseguia assim, pela primeira vez, fazer com que o mundo ficcional que criava se tornasse “mais real que a realidade”. Em jeito de curiosidade destaca ainda a sua estreia a escrever… no seu escritório — “A casa nova onde vivíamos tinha um escritório. Nunca tinha tido um, os meus dois primeiros livros foram escritos na mesa da sala de jantar”, revela.’

A partir da próxima semana, a Biblioteca da Fundação A LORD disponibiliza títulos deste autor a todos os leitores interessados. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Um poema...

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho! 


Olavo Bilac, in "Poesias", Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1964


O Leituras sugere...





...para outubro


Onde Estás, Caracol?

 Susanna Isern


Certo dia, a Lagartixa encontra, casualmente, o Caracol, o que lhe provoca um autêntico amor à primeira vista. Então, decide ir procurá-lo todos os dias. Porém, tal como em tantas outras histórias clássicas de amor, a relação entre o Caracol e a Lagartixa parece impossível. Se, noutras situações, os obstáculos aparecem por os protagonistas pertencerem a classes diferentes, neste caso, trata-se de espécies díspares: o Caracol não pode andar ao sol, porque fica seco, e aguarda que comece a chover escondido dentro da sua concha. Pelo contrário, a Lagartixa adoece se se molhar. Devido a estas circunstâncias, as dificuldades para se poderem encontrar apresentam-se irremediáveis, ao serem contraproducentes para ambos. Contudo, o amor vence todas as barreiras.


Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para Educação Pré-Escolar, destinado a leitura em voz alta.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Visita cultural

Visita ao Baixo Minho

Itinerário pelo património histórico de Guimarães e de Braga



No sábado, 16 de setembro, a Biblioteca da Fundação A LORD organizou mais uma visita cultural cujo objetivo foi conhecer o património histórico de Guimarães e de Braga.

Situado no Monte Latito, o Castelo de Guimarães está associado ao berço da nacionalidade pois, segundo a tradição, aí terá nascido Afonso Henriques.






Logo abaixo, situa-se a Capela de S. Miguel onde terá sido batizado o primeiro rei de Portugal.



Descendo a colina do castelo, surge, imponente, o Paço dos Duques de Bragança e, logo abaixo, a estátua do 1º rei de Portugal.



Percorrendo a Rua de Santa Maria, que liga a colina do castelo ao centro histórico, deparamo-nos com os atuais Paços do Concelho, instalados num antigo convento de Clarissas.


No coração do centro histórico, a Praça de Santiago destaca-se pelo seu traçado medieval.


Através das arcadas dos antigos Paços do Concelho medievais, acede-se à Praça da Oliveira. Um alpendre gótico com calvário e a Igreja de Nª Senhora da Oliveira são monumentos a relevar.



Antes da saída para Braga, uma última e bela imagem de Guimarães.

Na cidade de Braga, a nossa visita teve início no Santuário do Bom Jesus do Monte, situado no Monte Espinho. Do santuário fazem parte o escadório barroco e as capelas e passos da Via Sacra, bem como a Basílica neoclássica. A subida fez-se no funicular, inaugurado em 1882 e movido por um sistema de contrapeso de água.






No coração da cidade, passagem pela Avenida Central onde se destacam a Igreja dos Congregados e o Edifício Arcada e entrada na Rua do Souto, movimentada artéria comercial que conduz ao núcleo medieval da urbe bracarense.


Uma paragem obrigatória: o belíssimo Jardim de Santa Bárbara, um jardim público municipal, junto à ala medieval do antigo Paço Episcopal Bracarense. 


O nosso percurso terminou na Sé Catedral, cuja construção foi iniciada no final do século XI.




 A despedida e saída fez-se pelo Arco da Porta Nova, que é provavelmente uma das edificações mais icónicas da cidade, não só pelo que representa em termos arquitetónicos e urbanísticos, mas também porque será a este arco que Braga deve a expressão que costumamos ouvir quando alguém deixa uma porta aberta: “És de Braga?”


A terminar, impõe-se uma nota de apreço pela amável disponibilidade do nosso guia, Daniel Afonso, bem como pela pertinente informação transmitida num discurso claro, preciso e objetivo.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Escritor do mês | setembro

Afonso Reis Cabral
(1990-)



Afonso Reis Cabral nasceu em Lisboa em 1990 e cresceu no Porto. É o quinto de seis irmãos. Escreve desde os 9 anos. Em 2005 publicou o livro Condensação, no qual reuniu poemas escritos até aos 15 anos. Publicou textos em diversos periódicos. Em 2008 ficou em 8.º lugar no 7th European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature, entre mais de 3500 concorrentes de 551 escolas europeias e mexicanas. Foi o único português a concorrer. Em 2014, venceu o prémio LeYa, com o romance O Meu Irmão. Em 2017, venceu o Prémio Europa - Cátedra David Mourão-Ferreira na categoria de Promessa, que tem por objetivo galardoar uma personalidade emergente no campo artístico. 

Trineto de Eça de Queirós, considera que ser descendente do famoso escritor não era razão para também ser escritor, nem a genialidade da escrita vem por arrasto. Não há genética na literatura, garante. O seu primeiro romance tem a particularidade de contar uma história que tem paralelo com a vida - e a doença - do irmão. Aliás, o título do romance é esclarecedor: O Meu Irmão. Segundo o júri que lhe atribuiu o Prémio Leya, “O livro premiado trata de um tema delicado, que poderia suscitar uma visão sentimental e vulgar: a relação entre dois irmãos, um deles com síndrome de Down. A realidade é trabalhada de uma forma objectiva e com a violência que estas situações humanas, podem desenvolver, dando também um retrato social que evita tomadas de decisão fáceis, obrigando a um investimento numa leitura que nos confronta com a dificuldade de um mundo impiedoso. Há, no entanto, uma tonalidade lírica na relação que se estabelece entre dois deficientes e que salva, através de apontamentos de poesia e de humor, o desconforto de quem vive este problema.”

É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo recebido o Prémio Mérito e Excelência atribuído ao melhor aluno do curso. Na mesma instituição fez o mestrado em Estudos Portugueses com a dissertação A Orquestra Oculta-Os Estudos da Consciência e a Literatura.

Foi bolseiro no Centro de História da Cultura (FCSH-UNL), onde desenvolveu investigação sobre a editora Romano Torres. Sempre se imaginou a trabalhar na área editorial. Trabalhou como revisor em regime de free-lance e desempenha atualmente as funções de editor.


"Ele era amor em carne, amor em força bruta. Amor à flor da pele, como se o botão que gere a intensidade desse tipo de sentimento estivesse desregulado muito para lá do on." (pág.95).

SINOPSE
Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão - um professor universitário divorciado e misantropo - surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados - e o maior de todos chama-se Luciana. Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Um poema...

Em uma Tarde de Outono
Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac, in "Poesias" 

O Leituras sugere...





...para setembro


Ser Quem Sou
de Margarida Fonseca Santos


Crescer é um desafio enorme. Mas, às vezes, é difícil decidir que caminho devemos seguir. A Escolha É Minha é uma coleção sobre as opções que tens de tomar todos os dias com histórias de vida contadas por jovens tais como tu.

Aquelas férias, em que os primos iam estar todos juntos — a Matilde, o João Pedro, o Jorge e o Vicente —, prometiam ser divertidas e fantásticas. De repente, a discussão instala-se em redor da Matilde e dos seus pais, que a querem forçar a escolher um curso do Secundário que não lhe interessa. E esta não é a única prima com problemas por desvendar e por resolver. Também o João Pedro receia a reação dos seus pais quando lhes revelar a sua orientação sexual.

Ainda assim, aquelas serão as melhores férias de sempre, porque, entre discussões, partilhas e cumplicidades, cada um tem a coragem de assumir ser quem é e revela abertura para aceitar as diferenças dos outros. Esta história Ser Quem Sou podia bem ser a tua ou quem sabe a de alguém que conheces.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Escritor do mês | agosto

DULCE MARIA CARDOSO

(1964 -)


Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964, na mesma cama onde haviam nascido a mãe e a avó. Tem pena de não se lembrar da viagem no Vera Cruz para Angola. Da infância guarda a sombra generosa de uma mangueira que existia no quintal, o mar e o espaço que lhe moldou a alma. Regressou a Portugal na ponte aérea de 1975. 

Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu argumentos para cinema, gastou tempo em inutilidades. Também escreveu contos. Tem fé, uma família, um punhado de amigos, o Blui e o Clude. Continua a escrever e a prezar inutilidades. Vive em Lisboa.
Publicou em 2001 o seu romance de estreia, Campo de Sangue, Grande Prémio Acontece, escrito na sequência de uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura. Desde então publicou os romances Os Meus Sentimentos (2005), prémio da União Europeia para a Literatura, O Chão dos Pardais (2009), prémio Pen Club, e O Retorno (2011). É autora de duas antologias de contos: Até Nós (2008) e Tudo São Histórias de Amor (2014).
Os seus primeiros dois livros infantis, na coleção A Bíblia de Lôá, foram publicados em 2014. Em 2012, foi condecorada com as insígnias de Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras da França.
A sua obra está publicada em quinze países e é estudada em diversas universidades. Alguns dos seus contos e romances foram adaptados ou encontram- -se em fase de adaptação para cinema e teatro.

Bibliografia
·        Campo de Sangue; romance; Ed. Asa 2002
·        Os meus Sentimentos; romance; Ed. Asa 2005
·        Até Nós; contos; Ed. Asa 2008
·        O Chão dos Pardais; romance; Ed. Asa 2009
·        O Retorno; romance; Ed. Tinta da China 2011
·        A Bíblia de Lôá (infantojuvenil), Ed. Tinta da China, 2014 - Divide-se em 2 volumes: Lôá e a véspera do primeiro dia e Lôá perdida no paraíso
·        Tudo são histórias de amor (contos), Ed. Tinta da China, 2014

     Sundu ia maié, sundu ia maié, puta que a pariu. Vou dar pontapés em todas as portas até chegar ao pátio do recreio, a puta da professora mandou-me para a rua com uma falta a vermelho mas eu vingo-me, quero lá saber que as contínuas refilem, ó menino isto aqui não é a selva, não é como lá donde vens, aqui há regras, sundu ia maié, estamos a avisar-te menino, abro o peito e dou um pontapé noutra porta, conhecem-me de algum lado, olho as velhas bem de frente para lhes mostrar que não tenho medo, abro as narinas como o Pacaça diz que todos os animais fazem antes de atacar, as velhas recuam com as batas cinzentas e as varizes enfiadas nas meias elásticas, lá podias andar montado nos leões mas aqui tens de ter modos, as velhas refilam mas nem tentam impedir-me, têm medo de mim, passo pela cantina e dou um murro no carro dos tabuleiros, só me falta bater com a mão no peito para verem que acompanhava mais com os macacos do que com os leões, as velhas até saltam com o estrondo que o carro dos tabuleiros fez, se querem dizer mal dos retornados vou dar-lhes razões.
    
     A puta da professora, um dos retornados que responda, como se não tivéssemos nome, como se já não nos bastasse ter-nos arrumado numa fila só para retornados. A puta a justificar-se, os retornados estão mais atrasados, sim, sim, devemos estar, devemos ter ficado estúpidos como os pretos, e os de cá devem ter aprendido muito depois da merda da revolução, se for como em tudo o resto devem ter tido umas lindas aulas.

Dulce Maria Cardoso, O Retorno, Lisboa, Tinta-da-China, 2011, pp. 139-140.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Um poema...

"O castelo de areia"

Fiz um castelo de areia
Mesmo à beirinha do mar
À espera que uma sereia
Ali quisesse morar

Ó mar,
Ó mar...
Mas foi só uma gaivota
Que ali me foi visitar

Ó mar,
Ó mar...
Mas foi uma verde onda
Que ali me foi visitar.

E levou o meu castelo,
O meu castelo de areia
Para no mar morar nele
A minha linda sereia.

Luísa Ducla Soares in Poetas de hoje e de ontem