sexta-feira, 20 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro 2018



Um poema...

O Dia da Liberdade

Este dia é um canteiro
com flores todo o ano
e veleiros lá ao largo
navegando a todo o pano.
E assim se lembra outro dia febril
que em tempos mudou a história
numa madrugada de abril,
quando os meninos de hoje
ainda não tinham nascido
e a nossa liberdade
era um fruto prometido,
tantas vezes proibido,
que tinha o sabor secreto
da esperança e do afeto
e dos amigos todos juntos
debaixo do mesmo teto.

José Jorge Letria

quarta-feira, 11 de abril de 2018

O Leituras sugere...





...para abril 


As Duas Casas
 Ana Teresa Pereira



Este livro é constituído por duas partes:

A casa das sombras

A casa do nevoeiro


 As histórias acompanham um grupo de quatro jovens no início da adolescência, dois irmãos, a prima, e um amigo, que, por ocasião das férias se reúnem. A mãe dos dois irmãos, um rapaz e uma rapariga, é uma escritora que busca inspiração alugando diferentes casas pela ilha. É assim que David, Cristina, Mónica, João e o canino Charlie vão explorando a natureza que rodeia cada um dos locais, sejam praias escondidas de difícil acesso, sejam pistas para tesouros e labirintos escondidos.


«— Foram eles que te apanharam na biblioteca, David? 
— Sim. Saíram da abertura atrás da tela e ficaram tão surpreendidos ao ver-me como eu ao vê-los. Não tive tempo de fugir. 
Agarraram-me e trouxeram-me para este quarto.
— Tu deixaste cair a pedrinha vermelha...
— Sim. Para vos dar uma pista. Ainda bem que a encontraram. Não gostaria nada de ficar aqui para sempre.
A Mónica estremeceu. A ideia era horrível.
— E se eles voltam?»

De A Casa das Sombras



A casa [do Nevoeiro] ficava do outro lado do nevoeiro, quase no fim do mundo. Era um lugar tão estranho que Mónica tinha a certeza de que algo ia acontecer. Uma aventura inquietante. Quadros roubados, pintores que se desfazem em fumo, anjos, fantasmas que passeiam dentro das paredes...


Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 3º ciclo, destinado a leitura autónoma.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Escritor do mês | abril

Ana Teresa Pereira
(1958/)


Ana Teresa Pereira nasceu em 1958 no Funchal, onde vive. Ainda estudante e guia intérprete, viu publicado em 1989 o seu primeiro livro, Matar a Imagem, com o qual ganhou o Prémio Caminho Policial. Desde então, tem vindo a publicar regularmente.  Estreou-se na literatura infantil com A Casa da Areia e A Casa dos Penhascos, dando assim início a uma nova coleção para jovens. A singularidade da sua temática e a concisão da sua escrita dão a Ana Teresa Pereira um lugar próprio na literatura portuguesa atual.

«Nos últimos dezoito anos, Ana Teresa Pereira construiu uma das obras mais coerentes e sólidas da ficção nacional. De facto, sem que quase déssemos por isso, os mais de vinte romances que publicou, oscilando entre os fairy tales, o fantástico, o policial e o western, não necessariamente por esta ordem, fizeram do seu nome uma referência incontornável.» Eduardo Pitta, Público.

“A escrita de Ana Teresa Pereira deve mais ao cinema, à poesia ou à pintura do que à ficção portuguesa contemporânea, em relação à qual ocupa uma posição um pouco descentrada, e esse é um dos seus aspetos mais interessantes”, António Guerreiro.  

Ana Teresa Pereira venceu o Prémio Oceanos 2017 pelo seu último romance, “Karen”, tornando-se a primeira mulher a fazê-lo nos 15 anos de história deste prémio, no Brasil. Após publicar mais de 20 de livros no seu país natal e de ser traduzida para o inglês, francês, alemão, italiano e eslovaco, entre outros idiomas, Ana Teresa marcará sua estreia nas prateleiras brasileiras com “Karen”, a ser lançado no primeiro semestre do corrente ano.

Bibliografia 

Matar a imagem (1989), As personagens (1990) ,A última história (1991), A Casa dos Penhascos (1991),A Casa da Areia (1991), A Casa dos Pássaros (1991), A Casa das Sombras (1991), A Casa do Nevoeiro (1992), A cidade fantasma (1993), Num lugar solitário (1996), A noite mais escura da alma (1997), A coisa que eu sou (1997), As rosas mortas (1998), O rosto de Deus (1999), Se eu morrer antes de acordar (2000), Até que a morte nos separe (2000), A dança dos fantasmas (2001), A linguagem dos pássaros (2001), O ponto de vista dos demónios (2002), Intimações de morte (2003), Contos (2004), Se nos encontrarmos de novo (2004) - Prémio do PEN Clube Português na categoria de ficção, O sentido da neve (2005), O mar de gelo (2005), Histórias policiais (2006), A neve (2006)- Prémio Literário Edmundo Bettencourt (Câmara Municipal do Funchal), Prémio Máxima de Literatura, Quando atravessares o rio (2007), O fim de Lizzie (2008), O Verão selvagem dos teus olhos (2008), As duas casas (2009), A Outra (2010) - Prémio Literário Edmundo Bettencourt (Câmara Municipal do Funchal), Inverness (2010), A Pantera (2011), O Lago (2012) -Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, As longas tardes de chuva em Nova Orleães (2013), A Porta Secreta (2013), A Estalagem do Nevoeiro (2014), As velas da noite (2014), Neverness (2015), Karen (2016) -Prémio Oceanos de Literatura.


Tem colaboração nos jornais Público e Diário de Notícias (Funchal) e nas revistas Islenha e Margem 2 (ambas do Funchal).


“Le Notti Bianche passava se numa ponte: Maria Schell esperava o amante que partira há um ano, Marcello Mastroianni apaixonava se por ela, e havia música, não sei de onde vinha a música, talvez de um bar ou de uma esplanada próxima; lembro me de um barco no canal, e dos sinos a tocarem, e do momento em que começava a nevar, e da rapariga a deixar cair o casaco que tinha sobre os ombros e a correr para os braços de um dos homens. Black Narcissus: Deborah Kerr vestida de freira, e o inesperado dos seus cabelos ruivos quando recordava, porque aquele lugar fazia recordar coisas; Kathleen Byron a tocar o sino do mosteiro na beira do precipício e a pintar os lábios na sua cela, a voltar de madrugada com um vestido vermelho e o cabelo molhado; e depois a luta final entre a jovem com o hábito branco e a jovem com o vestido vermelho, as nuvens lá em baixo, o mosteiro erguia se acima das nuvens. 

Em tempos pensava que todas as histórias eram uma só, a luta entre o anjo bom e o anjo caído, e sempre à beira de um abismo”.

In Karen, cap. I




quinta-feira, 29 de março de 2018


Informamos que a Biblioteca estará encerrada nos dias 30 de março e 2 de abril .

terça-feira, 27 de março de 2018

Dia Mundial da Poesia | 21 de março

Dar a ler poesia às crianças é uma espécie de serviço público que só pode merecer elogios. A musicalidade das palavras, a multiplicidade de sentido e o exercício de experimentar diferentes interpretações habituam (espera-se) os pequenos leitores a pensar e a ler.

Rita Pimenta, Jornal "Público", secção P2 (Crianças, Livros), 19 de Abril de 2008


Celebrando, ainda, este dia e, sempre, a poesia, deixamos mais uma proposta de leitura para os mais pequenos: RONDEL DE RIMAS PARA MENINOS E MENINAS, de João Manuel Ribeiro; Ilustração: Anabela Dias. 

Trata-se de uma coletânea de vinte e três pequenos poemas ilustrados, com influências evidentes da poesia tradicional. Destaca-se a componente sonora dos textos, assim como a rítmica e melódica, verificando-se uma valorização da dimensão lúdica dos textos e da própria linguagem. As ilustrações de Anabela Dias também ajudam a conquistar os pequenos leitores.

Recomendado pelo PLANO NACIONAL DE LEITURA (Pré-Escolar).

Disponível na nossa Biblioteca.


Uma história de amor

Era uma vez um botão
chegado ao colarinho
que vivia em perdição
por nunca ser apertadinho. 

 Era uma vez uma janela 
 numa camisa preta 
 que desejava ser a cidadela 
 de um botão careta.

 Esta é e bem pode ser 
 uma história de amor. 
 Não sei que fim deve ter. 
 Escolhe tu, por favor."

O verão, os irmãos e a primavera

O verão
Como tanto menino, 
Tem mais que um irmão

Um, que vive sempre com sono,
Chama-se outono.

O outro, que parece eterno, 
Tem o nome de inverno.

Depois, para variar
Tem uma prima
Com quem rima
A correr e a brincar:

- É a PRIMAVERA


quarta-feira, 21 de março de 2018

DIA MUNDIAL DA POESIA | 21 MARÇO

Neste dia, apresentamos, como sugestão, a obra poética de MANUEL ALEGRE, poeta galardoado com o Prémio Pessoa 1999 e o Prémio Camões 2017, entre outros. Todos os poemas de MANUEL ALEGRE estão reunidos numa edição em dois volumes, disponível na nossa Biblioteca.


Uma flor de verde pinho

Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.

Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.

Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarra nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.

Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

Manuel Alegre



As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre


Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.

E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre


segunda-feira, 19 de março de 2018

Encontro com a escritora Manuela Ribeiro

Autora de poemas e de histórias infantojuvenis, Manuela Ribeiro esteve na nossa biblioteca, no dia 12 de março. 

Interessados e atentos, participaram no encontro com a escritora alunos do 2º ciclo da Escola Básica e Secundária de Lordelo e meninos do 3º e 4º ano da Escola Básica nº2 desta cidade.

Houve lugar a uma “viagem” pelos livros da escritora, a perguntas e respostas sobre a sua obra e, finalmente, aconteceu o momento mais desejado em que reinou o silêncio total:  ouvir um conto pela voz da própria autora.




A terminar o encontro, alguns minutos de convívio animado durante a realização de uma sessão de autógrafos.

Na despedida, as escolas participantes levaram livros autografados para as respetivas bibliotecas, numa oferta da Biblioteca da Fundação A LORD.




Porque estamos a celebrar o mês especialmente dedicado à poesia, deixamos aqui mais uma sugestão de leitura para os mais pequeninos, assinalando a visita de Manuela Ribeiro: Versos para meninos que comem sempre a sopa toda.


“Porque a sopa contém um ingrediente mágico que confere a quem a come um enorme sentido de humor, este livro só poderá ser lido por quem a comer mesmo até à última colherada!”

"O vento está constipado”


O vento está constipado.
Espirra e tosse, coitado!
Varre tudo à sua frente.
O vento está muito doente.

Passou a noite a gemer
Sem poder adormecer.
Tinha o nariz entupido
E doía-lhe um ouvido.

De manhã, muito cedinho,
A mãe levou-lhe um chazinho
E uma torrada quentinha
Para comer na caminha.

Sossegou por um bocado
Mas depois, muito agitado,
Pôs-se outra vez a fungar,
A tossir e a espirrar.

Vamos já tudo fechar
Para ele não entrar.
É preciso ter cuidado,
Que o vento está constipado.


Peixe! Peixe! Peixe!


Fui pescar um peixe ao mar, 
Mas foi total a pescaria
Que mais pareço morar
Numa enorme peixaria.

Pela manhã como pargo,
Ao almoço caldeirada,
À merenda grelho um sargo,
Ao jantar há só pescada.

Faço tanto cozinhado
Desta e daquela maneira,
Que o meu peixinho dourado
Ganhou medo à frigideira.

Sempre o mesmo no meu prato!
Quem me dera umas sopinhas!
Até o guloso do gato
Já não pode ver espinhas!"


"Querem mesmo saber
o que contam estes poemas?
Para isso, terão de comer
primeiro a sopinha toda..."

sexta-feira, 16 de março de 2018

Escritor do mês | março

António Nobre
(1867/1900)


António Pereira Nobre nasceu a 16 de agosto de 1867, na Rua de Santa Catarina, no Porto. Filho de burgueses abastados, estudou em vários colégios da cidade invicta e passava os verões nas casas que a família tinha no campo, na Lixa ou no Seixo (o seu «paraíso perdido», como lhe chamou o maior biógrafo do poeta, Guilherme de Castilho), ou na praia, em Leça.

Começou a escrever muito cedo, os seus primeiros poemas datam dos 15 anos de idade. Alguns anos mais tarde, ruma a Coimbra, onde cursa Direito. Tendo reprovado, decide ir fazer a licenciatura para Paris. Aí contactará com os poetas simbolistas, conhece Verlaine, Émile Zola, Alexandre Dumas e Mallarmé. Mas Nobre acabará por viver momentos de angústia na «cidade luz», lutando com dificuldades financeiras, longe da Pátria, dos lugares de infância e dos amigos. E é na solidão do seu quarto da rue des Écoles que escreverá muitos dos poemas que integrarão o "Só", publicado em Paris em 1892, pelo editor dos poetas simbolistas, Léon Vanier. A obra é mal acolhida em Portugal, com exceção de alguns amigos, mas quando o livro é reeditado seis anos depois, as reações já são mais favoráveis. Hoje faz-se-lhe finalmente justiça e "Só" está entre os livros maiores da literatura portuguesa. "Só" é um retrato do país em fins do séc. XIX, em especial do Norte (Douro e Minho), escrito grande ironia. O verso do poema inicial, "Memória", «O livro mais triste que há em Portugal», levou a que erradamente muitos pudessem julgar que se trataria de um livro triste, escrito por alguém com uma sentimentalidade marcada pela tristeza por se encontrar tuberculoso. Na realidade, o poeta foi «atingido» pelo bacilo de Koch, já depois de publicada a primeira edição de "Só". Em termos temáticos, destaca-se, neste livro, o pessimismo profundo da sua visão do mundo; em termos formais, a presença da linguagem popular e a utilização expressiva das marcas da coloquialidade. 

Atingido pela doença, Nobre irá começar uma série de viagens, na esperança da cura. Parte para a Suíça, mais tarde, com o agravamento dos sintomas embarca para a América, passa pela Madeira, parece melhorar, mas regressa de novo ao continente. Lisboa, outra vez a Suíça, passagem por Paris, de onde regressa já muito mal ao nosso país. Depois de uma curta estada numa quinta da família, em Penafiel, chega a 17 de março de 1900 ao Porto, onde morreria no dia seguinte, aos 32 anos, numa casa na Foz.

Deixou um grande número de poemas inéditos, que viriam a ser publicados postumamente nos livros "Despedidas", "Primeiros Versos" e "Alicerces", e muito mais tarde, a sua correspondência. António Nobre viria a ser reconhecido pelos modernistas e é hoje claro que foi um dos maiores contributos para a renovação da linguagem poética em Portugal. 

Um monumento a António Nobre, desenhado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, encontra-se perto da praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira.






MEMÓRIA 

à minha mãe, ao meu Pai

Aquele que partiu no brigue Boa Nova 
E na barca Oliveira, anos depois, voltou; 
Aquele santo (que é velhinho e lá corcova) 
Uma vez, uma vez, linda menina amou: 
Tempos depois, por uma certa lua-nova, 
Nasci eu... O velhinho ainda cá ficou, 
Mas ela disse: – «Vou, ali adiante, à Cova, 
António, e volto já...» E ainda não voltou! 
António é vosso. Tomai lá a vossa obra! 
«Só» é o poeta-nato, a lua, o santo, o cobra! 
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever... 
Lede-o e vereis surgir do Poente as idas mágoas, 
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas, 
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

sexta-feira, 9 de março de 2018

Dia Mundial da Poesia | 21 de março

Março é o mês da poesia.

No próximo dia 21, comemora-se o Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO com o objetivo de defender a diversidade linguística. Para celebrar esta efeméride, apresentamos aos mais novos uma sugestão de leitura que evoca um dos maiores poetas da literatura portuguesa: Fernando Pessoa.




Este livro apresenta a vida de Fernando Pessoa (1888-1935), apontando os marcos fundamentais dos 47 anos que viveu. Através de poemas de Fernando Pessoa, o texto e as ilustrações dão a conhecer esta figura da literatura portuguesa e mundial.

Recomendado por LER+ Plano Nacional de Leitura.


A Fada das Crianças



Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças, vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia —
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas…

E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas…
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa. 

Fernando Pessoa

HAVIA UM MENINO

lustração de Cristina Ruivo

Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.


Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
p’ra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.

Fernando Pessoa